Era outubro de 1987, e Peter Borish tinha um problema.
Não era um problema qualquer. Era o tipo de problema que faz um analista ficar parado na frente de dois gráficos sobrepostos, piscando, sem saber se deve ligar para o chefe ou ir buscar um café primeiro.
Borish era o estrategista-chefe da Tudor Investment Corp, o fundo de Paul Tudor Jones. Nos meses anteriores, ele havia desenvolvido um exercício que parecia mais curiosidade acadêmica do que análise de mercado: sobrepor o comportamento do Dow Jones de 1987 sobre o gráfico de 1929. A ideia era procurar padrões, semelhanças estruturais, qualquer coisa que os dados pudessem revelar.
O que os dados revelaram foi perturbador.
O homem dos pits de algodão
A trajetória de Jones começa longe de Wall Street.
Paul Tudor Jones nasceu em 1954 em Memphis, Tennessee. Não cresceu em família de banqueiros nem estudou finanças em Harvard. Entrou no mercado pelos pits de algodão da E.F. Hutton em 1976, onde aprendeu a operar da forma mais brutal possível: gritando, acenando, com a adrenalina do pregão físico subindo pela espinha. Nos pits, a leitura do fluxo era visceral. Não havia planilha que substituísse o instinto calibrado por anos de pregão.
Em 1980, com 26 anos, Jones fundou a Tudor Investment Corp com um capital modesto. O fundo cresceu de forma consistente ao longo dos anos seguintes, mas sem o tipo de notoriedade que viria depois. Jones era bem-sucedido dentro do seu nicho, respeitado entre os traders de commodities, mas ainda distante do estrelato de Wall Street.
Isso mudaria em 1987.
Dois gráficos, uma conclusão
A análise de Borish não era aleatória. O mercado americano havia passado por um ciclo de valorização acelerada nos anos anteriores, alimentado por otimismo pós-recessão e pela expansão do crédito. O Dow Jones havia mais do que triplicado entre 1982 e 1987. Qualquer taxista em Nova York tinha uma opinião sobre a bolsa.
Borish mapeou esse movimento sobre o comportamento do mercado entre 1924 e 1929, e a correlação que emergiu não era superficial. As curvas se sobrepunham com uma fidelidade que ia além do acaso: a inclinação da alta, o ritmo das correções, a aceleração final antes do pico. Era como se o mercado de 1987 estivesse relendo um roteiro escrito sessenta anos antes.
Jones olhou para aquilo e tomou uma decisão.
Ao longo de setembro e outubro de 1987, a Tudor Investment Corp construiu posições vendidas sobre os principais índices americanos. Comprou puts, montou operações que se beneficiariam de uma queda. A montagem foi gradual, calculada para não criar sinal no mercado. Jones sabia que se a análise estivesse errada, as perdas seriam gerenciáveis. Se estivesse certa, o resultado seria histórico.
Segunda-feira, 19 de outubro de 1987
O Black Monday começou com um clima ruim.
Os mercados asiáticos haviam caído na semana anterior. Londres amanheceu em colapso depois de um temporal que havia derrubado sistemas de telecomunicação no fim de semana. Quando Nova York abriu, havia uma fila de ordens de venda que os especialistas do pregão simplesmente não conseguiam absorver.
O que se seguiu foi o maior colapso de um único dia na história do Dow Jones, antes ou depois. Em seis horas e meia de pregão, o índice despencou 22,6%. Não 22,6% em um mês, não em uma semana. Em um dia. Um número que faz os 12% do crash de 1929 parecerem uma correção saudável.
Enquanto o mercado derretia, as posições vendidas de Jones multiplicavam de valor em tempo real. Cada ponto a menos no Dow era dinheiro na conta da Tudor Investment. Cada hora de queda era mais um capítulo numa história que ele havia escrito com meses de antecedência.
Quando o pregão fechou naquele dia, Jones sabia que havia acabado de participar de algo que a maioria dos traders não vivencia uma vez sequer na carreira.
O número
No final de 1987, a Tudor Investment Corp havia retornado 125,9% após taxas. Em termos pessoais, Jones estimou ter lucrado US$ 100 milhões naquele ano.
Para ter dimensão: em valores ajustados para hoje, aquele lucro equivale a algo próximo de US$ 1,5 bilhão. Num único ciclo de operações. Num único ano.
Jones tinha 33 anos.
A reação não demorou. Jornais publicaram manchetes sobre o “especulador que lucrou com o colapso”. Houve investigações e rumores de investigação. A lógica popular não conseguia digerir a ideia de que alguém havia se posicionado antes da queda sem ter “causado” a queda. Jones chegou a precisar de escolta em algumas ocasiões. O sucesso no mercado financeiro, quando grande demais, tende a parecer suspeito para quem está do lado de fora.
O documentário que ele não queria que você visse
Antes do Black Monday, ainda naquele mesmo ano, o jornalista e cineasta Michael Goodwin havia filmado Jones operando. O documentário, chamado simplesmente “Trader”, mostrava Jones no pregão, discutindo análises com Borish, falando sobre seus métodos de leitura de mercado com uma franqueza que hoje parece impossível imaginar num gestor do porte que ele se tornaria.
Depois do Black Monday, Jones comprou os direitos do documentário. E tentou fazer ele desaparecer.
Sua justificativa era simples: o filme revelava demais sobre como ele pensava. Mostrava o processo, as análises gráficas, a postura específica que ele usava diante de mercados sobrevalorizados. Era, nas palavras dele, um manual que ele não queria nas mãos dos competidores.
Por décadas, “Trader” existiu apenas em cópias piratas que circulavam entre traders colecionadores. Era o tipo de coisa que alguém conseguia num encontro de mercado, numa fita VHS emprestada, num arquivo de qualidade duvidosa baixado de algum fórum obscuro. A proibição, naturalmente, tornou o documentário ainda mais mítico.
O filme finalmente vazou com mais ampla circulação na era do YouTube. Quem assistir encontrará um Jones de 33 anos, movido a Coca-Cola e intensidade, falando sobre análise técnica com a convicção de alguém que acabou de descobrir algo que não quer compartilhar. A ironia é que, depois de décadas tentando suprimir o documentário, o que ele revela sobre o método é menos impressionante do que o que revela sobre o personagem.
O medo como vantagem
Jones ficaria famoso por uma frase que ecoa no mercado até hoje: “Os melhores traders são aqueles que têm medo do mercado.”
Numa indústria onde a confiança é exibida como credencial e admitir incerteza parece fraqueza, a declaração soa quase herética. Mas o 1987 de Jones ilustra precisamente o que ele quis dizer. Ele não tinha certeza de que o crash viria. Tinha uma hipótese baseada numa correlação histórica, gerenciou o risco em torno dessa hipótese, e ficou disposto a estar errado. O medo, no sentido que Jones usa, não é paralisia. É o antídoto para a arrogância que leva traders a manter posições muito grandes por tempo demais.
A outra máxima que se atribui a ele é mais direta ainda: “Nunca faça média em posição perdedora.” Simples, óbvio, ignorado com impressionante regularidade por quem conhece a frase de cor.
O que fica
Há um detalhe na história de Jones que costuma passar despercebido nas versões que circulam nas redes.
A análise de Borish que previu o Black Monday não era um algoritmo proprietário nem uma técnica exclusiva. Era uma sobreposição de gráficos históricos, o tipo de exercício que qualquer trader pode fazer com dados públicos e um software de planilha. A vantagem de Jones não estava no acesso a informações privilegiadas nem numa tecnologia inacessível.
Estava na disposição de agir com base numa hipótese que a maioria descartaria por parecer improvável. E na disciplina de montar a posição de forma que, se a hipótese falhasse, as perdas fossem toleráveis.
Em 2022, com 68 anos, Jones voltou a fazer declarações de mercado usando o mesmo tipo de análise histórica comparativa, desta vez citando preocupações com inflação e a postura do Fed. O resultado daquela análise é ainda uma questão em aberto.
O que não é questão em aberto é o método. Décadas depois do crash, a lição do documentário que ele tentou esconder é a mesma que estava na tela: o mercado repete padrões, e quem estuda o passado com atenção suficiente às vezes consegue ver o que está por vir.
O que separa essa visão de um lucro real é a coragem de agir antes que todo mundo concorde com você. Na maioria das vezes, quando todo mundo concorda, já é tarde demais.