Sede da Nelogica em Porto Alegre
Curiosidades

Como a Nelogica revolucionou a forma de operar no Brasil

Vitor Santos
Vitor Santos 3 de junho de 2026 · 7 min de leitura

Se você opera na B3, é quase certo que já usou o Profit. Mesmo que você não saiba o nome da empresa por trás dele, a Nelogica está presente em boa parte do que acontece no mercado de renda variável brasileiro. Mais de 70% das ordens enviadas pelo varejo passam pelos sistemas da empresa, e isso inclui desde o trader pessoa física operando mini contratos de casa até fundos de investimento e corretoras com estruturas inteiras.

Mas essa empresa não surgiu pronta. Ela começou com dois amigos, uma dor muito específica e seis meses de oxigênio no banco.

Porto Alegre, 2003: o começo pelo problema errado

Marcos Boschetti, cofundador e CEO da Nelogica

Marcos Boschetti e Fabiano Kerber se conheceram na faculdade de Ciência da Computação em Porto Alegre. Marcos tinha mestrado em microeletrônica e estava a caminho de um doutorado na Alemanha, com um cargo já garantido numa empresa de microchips. Fabiano tinha uma trajetória parecida. Os dois eram acadêmicos com futuro traçado.

O problema é que os dois tinham se interessado por mercado financeiro. Marcos começou operando opções da Telemar, e logo percebeu que as ferramentas disponíveis para aplicar os métodos que queria usar eram caras demais para quem ganhava salário de estudante. A conclusão foi natural para dois cientistas da computação: se não existe uma ferramenta acessível, a gente faz a nossa.

Então os dois abriram mão dos caminhos seguros. Marcos abandonou o doutorado e o emprego na Alemanha. Ambos pediram demissão, juntaram as economias que tinham acumulado como bolsistas e engenheiros iniciantes, e calcularam que tinham seis meses de sobrevida para fazer funcionar.

Foram para mais de 40 investidores pedir o capital inicial que precisavam, em torno de 10.000 dólares na época. Todos os 40 disseram não. O mercado não ia se desenvolver no Brasil, a empresa era fora do eixo Rio-São Paulo, eles não tinham rede no setor, o capital de risco praticamente não existia no país naquele momento.

Com o dinheiro próprio e sem plano B, os dois foram para o escritório. Trabalhavam das sete da manhã à uma da madrugada, todos os dias. Na sexta-feira ao meio-dia começava o que eles chamavam de “sexta-feira maníaca”: escolhiam uma funcionalidade grande para implementar e não saíam do escritório enquanto não entregassem, virando a noite até o sábado de manhã. A regra era simples: chegou no limite da exaustão, o produto está rodando.

No final dos seis meses, o carro do Fabiano, um Palio velho, ainda estava intacto. Ele tinha prometido vendê-lo se precisassem de mais fôlego. Não foi necessário.

O Profit e a virada

Interface do Profit Pro com múltiplas janelas de análise

A primeira versão da plataforma foi lançada em 2005. Na época, já processava informações de fluxo de dados em tempo real e oferecia ferramentas de análise com baixa latência, que era o diferencial técnico que os concorrentes caros não entregavam para o público pequeno.

O nome Profit veio depois, junto com a expansão. O que começou como uma solução para os próprios problemas dos fundadores foi se tornando a referência do setor. Corretoras passaram a oferecer versões subsidiadas da plataforma para seus clientes, o que acelerou a adoção de forma exponencial. Quem usava, indicava. O produto cresceu pelo boca a boca dentro de uma comunidade que, em meados dos anos 2000, ainda se organizava em fóruns de internet.

O modelo era modular: a plataforma recebia atualizações constantes, com novos indicadores e ferramentas sendo adicionados ao longo do tempo. Isso criou um ciclo de retenção poderoso. O usuário que aprendia a usar o Profit tinha dificuldade de migrar para outro sistema, porque os anos de configuração, os indicadores customizados e a familiaridade com a interface não se transferem.

O que a Nelogica vende, de verdade

Ferramentas de análise e gráfico do Profit Chart

Hoje a Nelogica não é só uma plataforma de trading. É uma empresa de tecnologia que atua em múltiplas camadas do mercado financeiro.

Do lado do usuário final, o Profit oferece desde versões básicas gratuitas até o Profit Pro, com o conjunto completo de ferramentas. A versão mais recente, o Profit Ultra, incorpora algoritmos para automatização de entradas e otimização de parâmetros, e tem linguagem de programação própria, a NTSL (Nelogica Trading System Language), que permite ao usuário criar indicadores personalizados e validar estratégias de forma automatizada.

Dentro do ecossistema, existe ainda a Nelogica Store, uma espécie de marketplace onde traders e desenvolvedores vendem indicadores e estratégias criados na plataforma. É um modelo que beneficia os dois lados: o desenvolvedor monetiza o que criou, e o comprador acessa ferramentas prontas sem precisar programar.

Do lado institucional, a Nelogica fornece sistemas de risco, infraestrutura para corretoras, algoritmos para fundos e soluções para tesourarias. É aqui que está a parte menos visível do negócio e, provavelmente, a mais estratégica. Uma empresa que está no meio do caminho entre o dinheiro e a bolsa tem uma posição que é muito difícil de desalojar.

A empresa também expandiu para além do mercado de ações e futuros. A Vector é a versão do Profit para criptomoedas. A Black Arrow atende negociação de ativos internacionais. E a Invest Academy entrou no segmento educacional, que no Brasil virou um mercado paralelo gigantesco junto com o crescimento do número de CPFs cadastrados na B3.

O tamanho que isso se tornou

Sede da Nelogica em Porto Alegre, onde trabalham cerca de 700 pessoas

De dois universitários com seis meses de runway e uma lista de 40 nãos, a Nelogica chegou a quase 700 funcionários e uma avaliação de mercado em torno de R$ 3 bilhões, segundo dados de 2021. Com 40% do time concentrado na região de Porto Alegre e o restante espalhado pelo Brasil e América Latina, a empresa adotou o trabalho remoto como parte estrutural do modelo, não como resposta temporária a uma pandemia.

Marcos Boschetti conta que, nos dias mais movimentados, circulam em torno de 20 pessoas fisicamente no escritório de Porto Alegre. Para uma empresa dessa dimensão, é um número que diz bastante sobre como o produto foi construído: a Nelogica entrega software, e software não precisa de presença física para funcionar.

A noite que virou história

Entre os episódios que marcam a trajetória da empresa, um em particular ficou famoso no setor. Em determinado momento, os sistemas de uma grande corretora parceira pararam de funcionar no meio do pregão. Sem perspectiva de retorno, o gestor ligou para Marcos à noite pedindo ajuda. A resposta foi imediata: a Nelogica liberou a versão completa da plataforma para todos os clientes da corretora, sem exceção e sem custo, até o problema ser resolvido.

A decisão deixou dinheiro na mesa. Um empresário mais focado em margem poderia ter aproveitado o momento para converter uma crise do concorrente em receita própria. Mas Marcos entendeu que a credibilidade era o ativo mais importante que a Nelogica tinha naquele ponto da história. Era cedo demais para transformar uma emergência alheia em oportunidade comercial.

Essa decisão rendeu uma parceria de longo prazo. E rendeu uma história que os dois contam até hoje.

Por que isso importa para quem opera

A Nelogica não é uma curiosidade histórica. Ela é a infraestrutura atual do mercado para a maioria dos traders brasileiros, e entender quem está por trás da ferramenta que você usa todos os dias tem valor prático.

Quando o Profit cai no meio do pregão, quando uma atualização muda a interface que você usava há anos, quando um indicador para de funcionar depois de uma versão nova: você está lidando com as consequências das decisões de uma empresa específica, com uma história específica e uma cultura específica. Conhecer essa cultura ajuda a entender os padrões de comportamento da plataforma.

E tem outro ângulo: a Nelogica é um exemplo concreto de como uma empresa de tecnologia brasileira conseguiu dominar um nicho altamente técnico, competitivo e regulado sem capital de risco, sem eixo Rio-São Paulo e sem os 40 investidores que disseram não. Começou com dois caras e um problema real. Terminou com 70% das ordens do varejo passando pelo sistema deles.

O mercado financeiro costuma ser contado pelas histórias dos traders. Essa é a história de quem construiu o lugar onde os traders operam.

Tags: nelogicaprofitplataformahistóriatecnologiaB3
Vitor Santos
Vitor Santos

Escreve sobre o lado menos glamouroso do trading: risco, disciplina e processo.

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